Porque não conhecemos os donos do ‘GTA’

“Eu não posso falar sobre GTA e Rockstar… tipo, nada”. As palavras de Stephen Bliss foram como um chute no saco. Ele veio para a Brasil Game Show 2017, que rolou neste mês, por ser o cara que criou as icônicas capas dos jogos de Grand Theft Auto desde GTA III, além de muitas das artes promocionais da série. E apesar de ser anunciado na programação da feira como “artista de GTA”, ele não podia falar nada sobre os jogos.

Em uma outra situação, também não conseguimos trocar uma ideia com os responsáveis pela ótima localização de GTA V para português brasileiro. O motivo era o mesmo. As tentativas de falar com pessoas envolvidas em GTAparecia uma missão do game, mas uma dessas missões em que falhamos por dar de cara com uma parede com o R e a estrela que formam a logo da Rockstar. Se fodeu.

Toda essa dificuldade para conseguir falar com qualquer pessoa ligada à empresa responsável por GTA não deveria ser uma surpresa. A Rockstar Games é conhecida por ser bem restrita e difícil de se falar. Os irmãos Sam e Dan Houser, respectivamente presidente e vice presidente da empresa, e responsáveis por tornar GTA o fenômeno cultural que é hoje, também não são de dar entrevistas e pouco aparecerem publicamente. A última dessas aparições foi em 2014, no BAFTA, a premiação da academia de filmes britânicos que também inclui games.

“Eu gostaria que ele [Sam Houser] desse mais entrevistas, mas eu sinto que a Rockstar está se abrindo mais hoje em dia”, falou Harold Goldberg, jornalista que conseguiu bater um papo maneiro com o dono todo-poderoso de GTA para uma matéria na Playboy (em inglês), na época do lançamento de GTA V, em 2013. Essa foi a última entrevista que Sam Houser deu até agora.

Em parte, a postura dos Houser de ficarem na deles é justificada por todas as polêmicas que GTA causou desde o primeiro game, que completou 20 anos neste mês de outubro.

Tudo sobre os donos do ‘GTA’

A violência dos jogos da série sempre atraiu ataques de políticos conservadores e o banimento da sua comercialização em alguns poucos países, como a Austrália. Tudo isso mais ajudou a série a ficar popular do que atrapalhou. Afinal, o que é proibido e é polêmica sempre gera mais interesse. Só que a situação ficou tensa e realmente séria com o caso do famigerado minigame de sexo “Hot Coffee” de GTA: San Andreas.

Para quem não lembra ou não sabe desse rolê, um minigame de sexo – em que uma das namoradas do protagonista o convidava para tomar um “café quente” na sua casa, por isso o nome – foi encontrado escondido nos códigos de GTA: San Andreas pela comunidade de mods do jogo. A cena de sexo não estava na versão final do game e só poderia ser acessada baixando um mod para a versão de PC, mas não importava. Políticos acusaram a Rockstar de esconder conteúdo pornográfico em um produto que podia ser acessado por crianças (mesmo o jogo sendo classificado para maiores de 17 anos).

Por causa da polêmica, todas as cópias de GTA: San Andreas tiveram que ser retiradas das lojas e depois relançadas sem o minigame no código, o que causou prejuízos na ordem de US$ 25 milhões. A Rockstar também foi processada por todos os lados e, para piorar, ela chegou a ser investigada pelo governo americano, e Sam Houser teve até que depor no congresso.

O livro O Grande Fora da Lei – A Origem do GTA, mostra em detalhes como Hot Coffee teve consequências severas para a Rockstar e Sam Houser. O autor David Kushner usou diversas entrevistas da época, falou com pessoas envolvidas na treta (os irmãos Houser, claro, não quiseram participar do livro) e teve acesso a e-mails internos da Rockstar para remontar toda a história.

“Depois de anos se portando como autoproclamados rebeldes da indústria, ser tratado como bandidos de verdade não foi muito legal”, escreveu Kushner. “Os empregados [da Rockstar] ficavam quietos e escondidos atrás das mesas na sede, brincando com as próprias chaves.”

“Membros da equipe de imprensa e relação públicas ainda quebravam a cabeça para lidar com a recusa da Rockstar de discutir o escândalo em detalhes com a imprensa.”

Acordos posteriores fizeram a companhia não ficar em maus lençóis com tantos processos e investigações nas costas, mas o dano já estava feito. A partir de então, a Rockstar ficou reclusa, assim como os irmãos Houser, que davam entrevistas vez ou outra e só para promover seus novos jogos.

As consequências podem ser sentidas até hoje, quando não conseguimos bater um papo com um artista envolvido com o jogo ou mesmo para saber mais como foi o processo de localização de GTA V.

Dada a sua posição na empresa, hoje Sam se tornou mais a cara pública da Rockstar que seu irmão, Dan. Harold Goldberg teve a sorte de entrevistar Sam Houser mais de uma vez e, na última, pode conversar por horas com essa figura tão peculiar do cenário de games e que poucos ainda conhecem totalmente.

“Ele é um cara complexo”, disse o jornalista. “Assim como muitas pessoas inteligentes, a maneira como ele vê o mundo não é só preto no branco. Há muitas áreas cinzas também.”

“Você deve acreditar em si mesmo para fazer esse tipo de trabalho [comandar uma empresa responsável por um jogo tão importante]. Não sou filósofo, mas acho que uma boa combinação de entusiasmo, inteligência, orgulho e ética são essenciais para o sucesso. E eu acho que Sam Houser tem tudo isso.”


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